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A radioterapia é uma das principais modalidades de tratamento do câncer e desempenha papel essencial no controle tumoral e na melhora da sobrevida dos pacientes. Entretanto, apesar de sua eficácia, a radiação ionizante também pode afetar células saudáveis — especialmente as da pele — levando ao desenvolvimento da radiodermite.
A radiodermite é uma reação inflamatória cutânea causada pela exposição à radiação ionizante, podendo variar desde vermelhidão leve até lesões mais graves com descamação úmida, ulceração e necrose. Estima-se que entre 80% e 95% dos pacientes submetidos à radioterapia apresentem algum grau de radiodermite, especialmente em tratamentos de câncer de mama, cabeça e pescoço.
O cuidado adequado com a pele durante a radioterapia é fundamental para reduzir complicações, evitar interrupções no tratamento e melhorar a qualidade de vida do paciente.
O que é Radiodermite
A radiodermite resulta do dano celular provocado pela radiação ionizante, seguido por uma resposta inflamatória que compromete as diferentes camadas da pele.
Esse dano ocorre de duas formas:
- Dano direto ao DNA celular
- Dano indireto pela formação de espécies reativas de oxigênio
Esses mecanismos impactam principalmente a capacidade de divisão e multiplicação celular, prejudicando a renovação da epiderme e levando às alterações cutâneas.
A radiodermite pode se manifestar como:
- Eritema (vermelhidão)
- Ressecamento
- Descamação seca
- Descamação úmida
- Dor
- Ardência
- Prurido
- Ulceração
- Necrose (casos mais graves)
Além do desconforto, a radiodermite pode comprometer a continuidade do tratamento oncológico, já que, em alguns casos, torna-se necessária a pausa da radioterapia.
Por que a pele sofre durante a radioterapia
A radioterapia não atinge apenas as células tumorais. As células saudáveis da epiderme também são afetadas, especialmente aquelas com rápida divisão celular.
Isso resulta em:
- Redução da renovação celular
- Diminuição da produção de colágeno
- Redução da vascularização
- Fragilidade cutânea
- Comprometimento da barreira da pele
Essas alterações tornam a pele mais sensível, seca e vulnerável a lesões.
Fatores que influenciam a gravidade da radiodermite
O desenvolvimento e a gravidade da radiodermite dependem de fatores extrínsecos e intrínsecos.
Fatores extrínsecos:
- Dose total de radiação
- Volume da área irradiada
- Técnica de radioterapia
- Fracionamento da dose
- Local anatômico irradiado
Fatores intrínsecos:
- Idade
- Estado nutricional
- Doenças associadas
- Diabetes
- Tabagismo
- Obesidade
- Condição da pele prévia
Pacientes com câncer de mama e câncer de cabeça e pescoço apresentam maior risco de desenvolver radiodermite.
Classificação da Radiodermite
A radiodermite é classificada em graus de acordo com a gravidade:
Radiodermite Grau 1
- Eritema leve
- Pele seca
- Sensibilidade local
- Prurido leve
Conduta:
- Higiene suave
- Hidratação tópica 2–3 vezes ao dia
- Creme barreira
Radiodermite Grau 2
- Eritema moderado
- Descamação seca
- Dor leve a moderada
Conduta:
- Hidratação intensiva
- Corticoide tópico conforme prescrição médica
- Monitoramento frequente
Radiodermite Grau 3
- Descamação úmida
- Dor intensa
- Possível infecção
Conduta:
- Avaliação médica
- Corticoide tópico
- Antibiótico tópico ou oral conforme prescrição
- Avaliar necessidade de pausa na radioterapia
Radiodermite Grau 4
- Ulceração
- Necrose
- Lesão profunda
Conduta:
- Avaliação multidisciplinar
- Tratamento avançado de feridas
- Possível suspensão do tratamento
Prevenção da Radiodermite
A prevenção é a principal estratégia para reduzir complicações cutâneas.
Medidas preventivas:
- Manter a pele limpa
- Utilizar água morna
- Evitar sabonetes agressivos
- Secar sem esfregar
- Evitar exposição solar
- Evitar depilação na área irradiada
- Utilizar roupas de algodão
- Evitar roupas apertadas
- Evitar adesivos na área irradiada
- Manter hidratação oral adequada
- Utilizar hidratantes apropriados
A educação do paciente e familiares é fundamental para o sucesso da prevenção.
Creme hidratante durante a radioterapia
A hidratação da pele é uma das medidas mais importantes.
Características ideais do hidratante:
- Base aquosa
- Sem fragrância
- Sem álcool
- Sem lanolina
- Hipoalergênico
- Alta absorção
Ativos recomendados:
- Glicerina
- Aloe vera
- D-pantenol
- Ácido hialurônico
- Ceramidas
- Niacinamida
- Água termal
Dica importante:
Evite aplicar hidratantes imediatamente antes da sessão de radioterapia. O ideal é aplicar após a sessão.
Evite Ácidos Graxos Essenciais (AGE) em lesões oncológicas. Embora muito utilizados em feridas comuns, os ácidos graxos essenciais devem ser evitados em lesões oncológicas e radiodermites abertas.
- Isso ocorre porque:
- Podem estimular angiogênese
- Podem favorecer crescimento tumoral em algumas situações
- Podem aumentar inflamação local
Obs.: A escolha do produto deve sempre considerar o grau da radiodermite.
Cuidados após o término da radioterapia
Os cuidados devem continuar por 3 a 4 semanas após o término do tratamento.
Isso porque:
- A pele ainda permanece sensível
- A inflamação pode persistir
- A cicatrização continua após o término da radioterapia
Manter:
- Hidratação da pele
- Proteção solar
- Roupas confortáveis
Monitoramento da pele
Importância do cuidado com a pele durante a radioterapia
Cuidar da pele durante a radioterapia:
- Reduz complicações
- Evita interrupções do tratamento
- Melhora qualidade de vida
- Reduz dor
- Favorece cicatrização
- Preserva autoestima
O cuidado deve ser individualizado e baseado na avaliação clínica do paciente.
Compressas de chá de camomila na radiodermite
O uso de compressas frias com chá de camomila é uma prática frequentemente utilizada como cuidado complementar na radiodermite e pode contribuir para o alívio dos sintomas cutâneos, especialmente nos casos leves a moderados.
A camomila (Matricaria recutita) possui compostos bioativos como flavonoides, terpenoides, apigenina e α-bisabolol, que apresentam propriedades:
- Anti-inflamatórias
- Calmantes
- Antioxidantes
- Antissépticas leves
- Cicatrizantes
Essas propriedades ajudam a reduzir:
- Vermelhidão
- Sensação de calor
- Ardência
- Coceira
- Irritação cutânea
Além disso, a compressa fria potencializa o efeito calmante, diminuindo o processo inflamatório local e proporcionando maior conforto ao paciente.
Estudos de revisão integrativa e sistemática indicam que a camomila pode ser utilizada como método profilático e terapêutico na radiodermite, sendo aplicada em forma de compressa, creme ou gel, devido às suas propriedades anti-inflamatórias e redutoras da irritação cutânea. Entretanto, apesar dos benefícios observados na prática clínica, ainda existem poucos ensaios clínicos randomizados, e o uso deve ser considerado como cuidado complementar, associado ao tratamento orientado pela equipe de saúde.
Como utilizar corretamente:
- Preparar o chá com água filtrada
- Aguardar esfriar completamente
- Manter sob refrigeração por alguns minutos
- Umedecer gaze limpa ou compressa estéril
- Aplicar suavemente sobre a área irradiada
- Deixar agir por 10 a 15 minutos
- Não esfregar a pele
Importante:
- Preparar o chá diariamente
- Utilizar gaze limpa ou estéril
- Evitar uso em feridas abertas sem avaliação profissional
- Não substituir tratamentos prescritos
- Quando usar compressas de camomila
As compressas podem ser utilizadas principalmente em:
- Radiodermite grau 1
- Radiodermite grau 2 (sem descamação úmida)
- Irritação cutânea leve
- Sensação de ardência ou calor
Evitar:
- Radiodermite grau 3 ou 4 sem avaliação profissional
- Feridas abertas
- Infecção local
A compressa de camomila é uma medida simples, acessível e potencialmente benéfica, especialmente quando utilizada dentro de um protocolo de cuidados com a pele durante a radioterapia, sempre respeitando a avaliação individual do paciente.
Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui a orientação do seu médico ou dermatologista. Em caso de dúvida, converse sempre com a sua equipe de saúde.
Referências Científicas
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